06/05/2008 - 12:51 — São Paulo (Trânsito)
Trânsito caótico gera um déficit de R$30 bilhões na economia paulistana por ano. Ex-secretário aponta transporte coletivo como solução para a crise.
Por Denver Pelluchi e Diego Costa
"...mas tente compreender, morando em São Paulo você sabe como é. Hoje a marginal engarrafou, e eu fiquei a pé...". O trecho da música de Seu Jorge soa como um alerta ao problemático trânsito na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP). A canção faz menção ao caos urbano, que afeta os seis milhões de motoristas que circulam diariamente pela capital. Contudo, esse grave problema de congestionamento não interfere apenas na vida dos motoristas, mas reflete diretamente no "bolso" do estado, acarretando um enorme prejuízo anual.
"O congestionamento na cidade de São Paulo custa 30 bilhões de reais ao estado", é o que explicou em entrevista ao Maplink o ex-secretário de Transportes de São Paulo, Adriano Branco. Ele acompanha o caso há 50 anos e esclarece que esse valor se justifica na baixa produtividade do trabalhador. De acordo com uma recente pesquisa Ibope, o paulista gasta de 1h30 a 2h diárias no trânsito, entre ida e volta para casa.
"Só este fator representa um déficit de R$12 bilhões do valor total do prejuízo", afirmou Branco.
No entanto, há outros fatores que contribuem para estes números, como é o caso dos acidentes, que geram um déficit de R$5 bilhões ao ano. Branco conta ainda que esse valor chega a números exorbitantes, pois não são computados outros fatores como, por exemplo, a poluição e degradação ambiental.
O trânsito em São Paulo bateu recorde de engarrafamento nos últimos tempos. Em março deste ano, a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET-SP) registrou 229 quilômetros no período da noite. Para se ter uma idéia, a velocidade média de um veículo que circula na RMSP é de apenas 15 quilômetros por hora.
O economista Marcelo Carvalho reitera a tese e acredita que a enorme demanda por transporte de melhor qualidade, possibilitado pelo aumento no consumo de carros, influencia no fluxo intenso de veículos.
"Esse uso irracional dos automóveis gera um acréscimo do valor do combustível devido ao tempo de parada, o desgaste dos veículos e o tempo perdido com o deslocamento", afirmou.
Caminhões agravam o problema do trânsito na cidade
O transporte de cargas é outro fator a ser analisado, pois está inserido no leque de fatores que compõem o gasto com trânsito. Atualmente, 70% são feitos por caminhões, o que é errado para Adriano Branco. "Eles são os que mais prejudicam as estradas e ruas da RMSP", declarou.
Os caminhões representam 6% da frota de veículos que circulam em São Paulo. Mas são responsáveis por causar 30% dos acidentes registrados na capital: "Não temos vias públicas que possam admitir o tráfego seguro desses caminhões".
Adriano explica que este quadro, consolidado há anos, mantém-se de pé porque há um incentivo ao uso de caminhões para a realização de serviços desta espécie. "Os transportes por caminhões são protegidos por um subsídio do governo de grande proporção. Nas estradas eles não precisam pagar uma tarifa de pedágio, que é absurda. Muito menos são obrigados a pagar pedágio pela construção das vias na cidade", afirmou.
Quem vivencia esse impasse são os donos das transportadoras, na medida em que são pressionados tanto pelos prejuízos econômicos causados pelo trânsito, como também tentam se equilibrar nas restrições que a capital paulista impõem ao tráfego de sua frota pela cidade.
O Gerente Operacional da empresa de transportes Della Volpe, Giancarlo Gouveia, 43 anos, relata que a solução encontrada por ele, para minimizar os danos causados pela perda de horas no trânsito, foi a adoção de uma medida preventiva para cumprir os horários de entregas.
"Nossa frota inicia os trabalhos às 6h. Quando temos que realizar entregas dentro da RMSP, saímos às 4h", explicou.
A empresa, que transporta cargas de produtos químicos e petroquímicos, enfrenta grandes dificuldades ao utilizar as Marginais Pinheiros, Tietê e a Avenida Bandeirantes como trajeto de entrega. "São nessas vias que o transporte é prejudicado pelo trânsito", reclamou Gouveia.
O gerente operacional conta ainda que a empresa realiza em média 3.000 viagens durante o mês. No entanto, 10% dessas viagens estão passíveis de gerar prejuízo por demorra, que na explicação de Giancarlo Gouveia é quando se registra um atraso na entrega de contêiner.
"Para cada atraso é cobrado U$ 115,00", ressalta o gerente, ao confessar que somente no mês de março a transportadora pagou U$1.500,00 devido ao atraso.
Para o economista Marcelo Carvalho, esse exemplo retrata bem como a mercadoria, ao pisar em solo paulista, sofre um acréscimo, tornando-a muitas vezes inviável ao consumidor. "A elevação de tempo de deslocamento dos veículos de transporte são elementos que refletem no valor dos fretes e conseqüentemente no preço destas mercadorias", comentou.
A solução para a taxa anual que pagamos por essas mazelas no trânsito incita muitas discussões e não escapa ao julgamento dos governantes.
"O governo estadual e municipal deveria criar políticas públicas que desempenhem o papel de induzir os cidadãos a um uso mais adequado da coletividade de seus bens e recursos", disse Marcelo, ao apontar que uma fatia desse caos urbano deve ser atribuída às autoridades do estado e município.
Soluções a longo prazo
Marcelo afirma ainda que se houvesse uma política pública eficaz quanto ao estímulo à utilização de transporte coletivo no passado, poderíamos verificar resultados expressivos na redução do número de veículos na rua.
Adriano faz uma análise semelhante e fornece algumas diretrizes para que o sistema de transporte gere lucro. A solução é reaquecer o programa de construção de linhas de metrô e aperfeiçoar o sistema de ônibus.
"O metrô hoje em dia abrange um espaço territorial de 60 quilômetros, o que é muito pouco difundido. A Cidade do México, por exemplo, conta com 220 quilômetros de linha. Poderíamos aumentar pelo menos para 150 quilômetros", ressaltou.
É quase utópico pensar no custo de um projeto deste. No entanto, Branco afirma que São Paulo tem condições para encabeçar obras desta amplitude, caso o governo saiba acumular dinheiro com a receita do transporte público, como exemplifica com o metrô.
"Quando se faz obras como a do metrô, por exemplo, a área de construção acaba sendo valorizada, e quem ganha com isso são os especuladores imobiliários".
Ele esclarece que o recurso gerado por essa obra, fruto da valorização do local, não deve ser aproveitado pelos especuladores e sim pela prefeitura e municípios como outros países o fazem, colocando o sustento do transporte a cargo deste fenômeno da valorização.
Em Tóquio, do total do lucro arrecadado pelo metrô, 77% é proveniente dos negócios imobiliários e 23% da receita origina-se das tarifas de transportes.
O metrô de São Paulo gera renda de R$1 bilhão anual. Branco afirma que se fôssemos aproveitar esse sistema, o valor poderia quadruplicar. "Podemos ter uma renda de R$4 bilhões".
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Agência MBPress